A palavra que eu mais falo de 07:00 às 13:00 é "infelizmente":
"Infelizmente, eu não posso passar a senhora, que tem 70 anos, na frente (dessas outras 9.187.486.486 pessoas mais doentes que a senhora.)"
"Infelizmente o senhor não pode fazer seu exame hoje (e o senhor acordou 2 horas da manhã para vir da sua cidade no interior até aqui à toa.)"
"Infelizmente o sistema saiu do ar, por isso não podemos coletar seu sangue ainda, mesmo a senhora sendo deficiente (e nem pelas próximas 2 horas, quando o sistema deve voltar.)"
"Infelizmente, eu não posso te ajudar... (ninguém pode.)"
Itálico= coisas que eu queria falar...
É duro, ver tanta gente precisando de ajuda e não poder fazer nada. Gente que vem de longe fazer um exame de sangue simples (ou pior: faz uma viagem para fazer um exame de urina rotina, que é coisa boba de colher), mas não consegue. Gente que enfrenta uma fila enorme, na chuva e no sol, com fome, em pé, por mais de 3 horas, pra fazer um exame... e ninguém ali está completamente saudável e/ou tem condição financeira, ou não estaria ali!
O SUS? A proposta do SUS é excelente. Pena que não funciona.
O atendimento universal, integral, gratuito e igual a todos os cidadãos é uma proposta linda, pioneira (nem todos países têm assistência integral à saúde gratuita, mesmo dentre os de primeiro mundo) e recente (o SUS tem minha idade, pra quem não sabe. Nesse tempo, foram 6 presidentes, com diferenças marcantes na forma de governo entre alguns deles).
O SUS é um sistema complexo, composto de várias engrenagens, que precisam estar sincronizadas para a coisa funcionar. Mas, não é isso que acontece. O motivo? Vários. O principal é (falta de) dinheiro.
O sistema eletrônico é falho, quase primitivo, e muitas vezes a comunicação entre as várias engrenagens do sistema fica limitada. A verba é curta, não permitindo a adequação física dos locais de atendimento para a demanda enorme (se é pra todos, deveria dar pra atender a todos, certo?) A verba é apertada também para fornecer equipamentos avançados a várias instituições, limitando alguns atendimentos a locais específicos.
Até mesmo para itens de segurança (óculos de proteção, por exemplo) ou kits para exames simples a coisa é difícil: a burocracia de compra é um limitante, deixando profissionais e pacientes na mão.
Os funcionários? Mal pagos e com uma estrutura deplorável para trabalhar: não há a menor motivação.
Infelizmente, como em qualquer serviço (público), existem alguns profissionais que deixam a desejar: se o horário do funcionário é de 7h às 16h, ele CHEGA às 7-e-pouco, e não COMEÇA A TRABALHAR nesse horário. O resultado é um serviço que sempre começa atrasado, mas acaba impreterivelmente no horário descrito. Uma pessoa com um pouquinho menos de ética desanda o atendimento inteiro... imagina algumas pessoas assim!
O somatório desses fatores é a saúde que conhecemos... como falei, utópica: linda na idéia, mas que não funciona.
Talvez se fôssemos um povo menos acomodado, mais interessado em ajudar o próximo que dar nosso "jeitinho brasileiro" de fugir do batente, e com mais investimentos no sistema inteiro, tudo seria mais eficiente... e eu teria que falar menos "infelizmentes" ao longo do meu dia.