Há alguns - muitos - anos eu escrevia bem. Dentre meus amigos nunca fui a que melhor lidava com as palavras, mas escrevia bem. O texto fluía e eu conseguia, com um lápis e um papel qualquer, me expressar.
Escrevia sobre coisas bonitas, outras nem tanto. Tinha textos bons, outros sofríveis. Mas eu colocava tudo para fora, me declarava, me desculpava, me desconcertava para me consertar de novo. Eu desabafava.
O grafite arranhado no papel deixava seu rastro em forma de palavras e aquela verborréia das minhas idéias... era como se eu vomitasse minha alma ali. E depois seguia leve, como quem se livrou de um grande peso.
E então eu fui quebrada. Ainda em cacos, consegui escrever algo, como um diário de minha reconstrução, pedaço por pedaço. E essa reconstrução demorou anos. Mas uma peça ficou fora do meu quebra-cabeça pessoal.
Não sei se esta peça foi justamente aquela que me foi roubada, retirando meu apoio e me fazendo desmanchar, ou se (para me proteger, talvez) eu mesma deixei que esta peça se perdesse.
A verdade é que, desde que me recolei inteira, me reinventei. E a nova "eu" não sabe mais escrever.
Desde então, não escrevi mais nada bonito, ou profundo, ou poético. Desde então, tudo que escrevo é sincero, mas não ditado pelo coração - em verdade, nem sei se restou de fato algum coração ali.
Me pergunto se é por falta de sentimentos, de motivos para escrever, ou simplesmente porque amadureci na amargura que restou, não me permitindo mais aliviar-me no papel.
Há tanto que eu queria dizer e não consigo, não posso. Há tanto que eu queria fazer e não me permito...
E então me entrego às frivolidades que geralmente escrevo aqui, correndo o risco de parecer boba demais, fútil demais, tola demais.
Mas evitando o risco de falar demais sobre o que há dentro mim.
"Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha
e não nos deixa só porque deixa um pouco de si
e leva um pouquinho de nós."
(ou algo assim...)
Charles Chaplin






